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up grade . 2008 . técnica mista . 100 x 70cm . bolsa do Dep. de Gravura da FBAUL. |
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31.1.11
exposição Espaços/Memória
ESPAÇOS/MEMÓRIA - texto do prof. António Pedro
Espaço/Memória é a primeira de três exposições de desenho de finalistas da Faculdade de Belas-Artes da Universidade de Lisboa que integram o ciclo “work in progress”, nos Espaços do Desenho, por iniciativa de Teresa Carneiro e Luís Filipe Gomes, em colaboração com o núcleo de Desenho da FBAUL.
A exposição dá-nos a conhecer os trabalhos de Amália Cardoso, Alexandra Mangorrinha Sousa, Filipa Burgo, Maria Sassetti e Matilde Corrêa Mendes. Na contemplação da memória, que dá origem ao tema da exposição, prevalece o sentido do olhar múltiplo. Todavia, o carácter heterogéneo das obras apresentadas não impede o reconhecimento de um fio condutor que oscila entre os testemunhos da memória subjectiva e os ecos que os sinais visuais despertam no observador.
A memória que está presente no espaço destes desenhos não é a memória virtuosa da representação ilusória, mas o encontro com a memória poética e narrativa que a escrita do desenho possibilita. Os traçados aqui expressos integram modos de expressão diversificados, desde a barra de grafite sobre papel à projecção simultânea de vídeo, incluindo também o desenho objecto e o desenho de instalação.
Construções utópicas e mutações urbanas, gerações passadas reconstituídas através de cicatrizes e de artefactos, sequências de ondas que se repetem num mecanismo elementar e formas indeterminadas em suspensão caracterizam a memória do espaço aqui recriado com uma intencionalidade imprevista cuja unidade surpreende.
Para além da relação próxima que podemos estabelecer com os trabalhos apresentados, devemos ter em conta a acção processual que tem vindo a decorrer metodicamente ao longo da formação académica das autoras e que nos permite antever uma continuidade promissora.
projecto Rita Wotton - cicatrizes
Data: 13 de Fevereiro de 1937
Local: Rua do Século, Lisboa
Idade: 1 dia
Localização específica: umbigo
Dimensões: 1,25cm
Formato: cavidade circular
Formato: cavidade circular
Coloração:
Causa: nascimento, corte do cordão umbilical
Data: Março de 1942
Local: Rua do Século, Lisboa
Idade: 5 anos
Localização específica: coxa direita
Dimensões: 1cm
Formato: oval
Formato: oval
Coloração: avermelhada
Causa: queimadura
Data: Abril de 1946
Local: Rua do Século, Lisboa
Idade: 9 anos
Localização específica: ouvido
Dimensões: 0,6cm
Coloração: carmesim, arroxeado
Coloração: carmesim, arroxeado
Causa: otite
Data: Janeiro de 1949
Local: Londres
Idade: 11 anos
Localização específica: tornozelo esquerdo
Dimensões: 2cm
Formato: oval
Coloração: castanha
Coloração: castanha
Causa: queda de bicicleta
27.1.11
projecto Rita Wotton
Quem é a Rita Wotton? Figura inventada, alter-ego, manifestação do inconsciente, bióloga e mãe, figura feminina num mundo ainda sujeito a um pensamento falocêntrico, mas também é expiação ou catarse, divagação, fuga e retorno à identidade, desdobramento no múltiplo, cópula de significantes e significados. É um afunilamento de referências, de peças soltas constituídas por um conjunto de memórias familiares e históricas, de entidades reais conhecidas e de outras anónimas, que são permeáveis e imensamente absorventes, mas que ao contrário de um puzzle apresentam uma infinidade de possibilidades de agrupamento. Como num tangran ou num rizoma, existe aqui uma tentativa de congregar elementos díspares, pedaços aleatórios da poeira dos dias, em arranjos/narrativas múltiplos, sem que haja uma disposição final ou definitiva: existe sim um processo.
Este processo, de criação da personagem, iniciou-se com a recolha e catalogação de cicatrizes de um grupo referencial composto por quatro pessoas. Partindo desse conjunto de cicatrizes, que remetem para acontecimentos específicos e reais, como uma queda de bicicleta, uma queimadura ou até o próprio nascimento (umbigo), criei uma cronologia que abrange alguns dos momentos decisivos na vida da personagem, aos quais acrescentei factos inventados, desenvolvendo uma narrativa verosímil que unisse os dez momentos-chave para os quais as cicatrizes remetem. À volta dessas cicatrizes delineou-se todo um cenário, um ambiente atmosférico em que proliferam os detalhes, um texto-guia eminentemente explicativo: desde o rascunho de pormenores contextuais, que nos envolvem e transportam para uma casa de tectos altos, para um jardim com cheiros múltiplos e sons indefiníveis, ou ainda um espaço floresta-virgem, através de descrições que abarcam todas as dimensões sensoriais, até relatos vivos dos momentos específicos em que o corpo serve de suporte para a acção perpétua de desenho do tempo.
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